Faculdade Católica de Fortaleza
Dulcinéa Gil
DO SABER CIENTÍFICO AO SABER POPULAR:
a experiência restauradora da fé no contexto da Terapia Comunitária do Projeto Quatro Varas
Monografia apresentada à Universidade Católica de Fortaleza como requisito parcial para obtenção do grau de Bacharelado em Teologia.
Prof. MS. Orientador: Pe. Francisco Antonio Francileudo.
Fortaleza
2010
Defesa em: 22/06/2010 Nota Obtida: 10_
Banca Examinadora
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Prof. MS. Orientador: Pe. Francisco Antonio Francileudo.
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Prof. MS. DRa. Examinadora: Gardênia M. de Oliveira Barbosa
Epígrafe
No dia em que todo conhecimento científico, toda prática política e toda profissão de fé caminharem no sentido de ajudar as pessoas a acreditar nelas, em seus recursos culturais, o mundo será diferente, porque ajudaremos o ser humano a sair de toda forma e dependência e submissão, para atingir a liberdade e a autonomia que nos tornam cidadãos do mundo.
(ADALBERTO BARRETO)
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ........................................................................................ 06
CAPÍTULO 1 - TRAJETÓRIA DA TERAPIA COMUNITÁRIA ........... 10
1.1. Movimentos Sociais no Brasil: Décadas 1960-1980.............................. 12
1.2. Perfil do Pirambu ................................................................................ 15
1. 3. Projeto Quatro Varas ......................................................................... 16
1.4. Adalberto Barreto e sua Identidade Cultural ..........................................19
1.5. Descrição da Terapia Comunitária ........................................................22
CAPÍTULO 2 – LIBERTAÇÃO PELA FÉ .............................................. 29
2.1. Transformação pela Análise da Realidade Social .................................. 29
2.2. Inversão da Práxis Estabelecida ............................................................ 31
2.3. Novos Alicerces para a Fé ................................................................... 33
CAPÍTULO 3 – BENEFÍCIOS DAS RODAS DA TERAPIA COMUNITÁRIA ... 40
3.1 Consciência Libertadora e Experiência Crítica do Sujeito …..................... 41
3.2. O Método Dialético e o Resgate das Raízes Culturais ….......................... 42
3.3. O Experiência Libertária pela Fé .............................................................. 45
CONCLUSÃO .............................................................................................. 48
BIBLIOGRAFIA ............................................................................................ 51
ANEXOS ....................................................................................................... 52
INTRODUÇÃO
O reflexão de Adalberto de Paula Barreto[1], em epígrafe, criador e sistematizador da metodologia da Terapia Comunitária do Projeto Quatro Varas na favela do Pirambu, em Fortaleza, revela o impulso idealizador que é mantido desde 1987 quando inicia o que viria a ser a Terapia Comunitária, juntamente com alguns alunos do Curso de Medicina da Universidade Federal do Ceará e 36 pessoas desta comunidade naquele bairro da cidade.
Tomei contato com este trabalho em 1993 ao ler uma matéria publicada pelo jornalista Flaminio Araripe, meu marido, então correspondente do Jornal do Brasil, sobre casos de fome no Ceará. No Pirambu, ele entrevistou José Airton de Paula Barreto[2], irmão de Adalberto, que relata a morte de uma criança que ao agonizar para depois morrer, perguntou à sua mãe: “No céu tem pão?”. O caso me comoveu. A matéria abordava o trabalho que os irmãos Barreto, Airton e Adalberto, faziam junto à comunidade Quatro Varas no resgate da cidadania, da identidade e promoção da auto-estima. A matéria enfocava o cenário de um local inóspito onde é desenvolvida a Terapia Comunitária, trabalho voltado para a valorização do homem e a conscientização de seu potencial cultural. Desde então fiquei interessada em conhecer esta experiência.
Propõe-se investigar como a fé pode ser ressignificada com o trabalho terapêutico nesta modalidade de terapia comunitária. Procura-se conhecer se há uma transformação da crença quando se dá o encontro com o ser político, isto é, o que transforma a vida da pessoa no momento em que ela passa a atuar de forma consciente nas questões que dizem respeito à sua vida. Queremos ainda comparar as bases pedagógicas do método da Terapia Comunitária com a pedagogia de Paulo Freire e investigar se este método tem vínculo com a Teologia da Libertação, uma vez que existe uma aproximação dos irmãos Barreto com os estudos de teologia, o que desenvolveremos nos capítulos seguintes.
É oportuno situar o que antecede a este movimento, o período de 1964 a 1978 quando
as lutas de classe emergem de um refluxo imposto pelo regime militar, entre eles a educação
popular no Brasil.
Os trabalhos de educação popular iniciam processos intensos de discussão, análise e reflexão. Isto, por sua vez, potencializa processos de conscientização e participação destas pessoas, que passam a entender – dentro de uma perspectiva histórico-social crítica – as razões e os porquês delas estarem vivendo em tais condições desumanas e de exploração. E, ao entenderem isto, começam a eliminar o caráter de psicologização das explicações vigentes ou mesmo dos inúmeros fatalismos propagados pela ideologia dominante, e, portanto, passam a divisar alternativas de mudança e de melhoria para suas vidas. (FREITAS, 2007, p. 47-62).
Em 1996, por um período regular, comecei a visitar a comunidade, entrevistando as pessoas, anotando as impressões para a realização de um filme documentário. O que mais me chamou a atenção nas frequentes visitas foi a dignidade, sensibilidade e alegria de viver expressas no olhar e atitude das pessoas que participam do Projeto Quatro Varas, que hoje dirigem ou dão suporte às atividades terapêuticas e que tiveram a oportunidade de participar da Terapia Comunitária e da Terapia de Resgate da Auto Estima.
A atenção que é dada no acolhimento aos visitantes, sejam estes pessoas simples e necessitadas da favela ou ao visitante estrangeiro, como presenciei com um grupo de franceses que esteve presente em uma das minhas visitas ao projeto, revelou-se para mim como a ponta de um iceberg. Tive vontade de conhecer esta base - reconhecer em cada sujeito sua singularidade, respeitar o indivíduo pelo que ele é e não por sua condição social. Encontra-se na filosofia de Paulo Freire e nas práticas de emancipação popular, orientadas pelos trabalhos da psicologia social comunitária, a compreensão da mudança de atitudes desta prática libertadora:
Esta luta somente tem sentido quando os oprimidos, ao buscar recuperar sua humanidade, que é uma forma de criá-la, não se sentem idealistamente opressores, nem se tornam, de fato, opressores dos opressores, mas restauradores da humanidade em ambos. E aí está a grande tarefa humanista e histórica dos oprimidos – libertar-se a si e aos opressores. (...) só o poder que nasça da debilidade dos oprimidos será suficientemente forte para libertar a ambos. (FREIRE, 1979, p. 31).
Neste período de pesquisa, em contato com o dia a dia do Projeto Quatro Varas, constato esta disponibilidade em acolher da melhor maneira a quem chega. Esta atitude confirma dentro de mim algo novo nas relações humanitárias. Busco com o presente trabalho encontrar as respostas e conhecer a trajetória de lapidação que foi praticada na conscientização destes indivíduos.
Utilizou-se na pesquisa de campo formulário de perguntas aos entrevistados previamente elaborados. Adota-se a abordagem etnográfica, que não exige técnicas com padrões rígidos ou pré-determinados, mas sim, o senso que o etnógrafo desenvolve a partir do trabalho de campo no contexto social da pesquisa.
A etnografia como abordagem de investigação científica traz algumas contribuições para o campo das pesquisas qualitativas que se interessam pelo estudo das desigualdades e exclusões sociais: primeiro, por preocupar-se com uma análise holística ou dialética da cultura, isto é, a cultura não é vista como um mero reflexo de forças estruturais da sociedade, mas como um sistema de significados mediadores entre as estruturas sociais e a ação humana; segundo, por introduzir os atores sociais com uma participação ativa e dinâmica no processo modificador das estruturas sociais. (MATTOS, 2001, p. 3).
Entrevistou-se nove sujeitos participantes, de ambos os sexos, com idades entre 27 e 72 anos, todos nascidos no Ceará. A escolaridade predominante é do ensino fundamental. No decorrer da dissertação utilizo os nomes reais dos sujeitos participantes e entrevistados por permissão explícita dos mesmos. Estes afirmam não precisar escrever texto de autorização.
No primeiro capítulo será delineado um panorama da trajetória da terapia comunitária que antecede aos movimentos sociais no Brasil nas década de 1960-1980; o perfil do bairro do Pirambu; o início da comunidade do Projeto Quatro Varas; a identidade cultural de Adalberto Barreto, que considera-se decisiva para a constituição da Terapia Comunitária e a descrição etnográfica de uma roda de terapia comunitária.
No segundo capítulo constatamos a transformação do indivíduo pela análise da realidade social, que tem repercussão na fé do sujeito, uma vez que a terapia comunitária valoriza a trajetória de vida e procura, no processo de cura, acessar os recursos individuais - culturais e religiosos - libertando o indivíduo de modelos que os aprisionam. Identificamos influência da pedagogia do Paulo Freire e da Teologia da Libertação no método utilizado da Terapia Comunitária.
Os benefícios das rodas de terapia comunitária serão abordados no terceiro capítulo onde é utilizado o método dialético. A palavra passa a ser instrumento de transformação pessoal uma vez que a abordagem sistêmica permite ao indivíduo compreender a interligação dos sistemas sociais e vivenciar a noção de co-responsabilidade social.
Em uma entrevista concedida a mim em 1996, Airton Barreto relata como tudo começou. Em 1981, seis anos antes de ser criada a terapia comunitária, ainda estudante de Direito da UFC e estagiário na Arquidiocese de Fortaleza, Airton tem a oportunidade de acompanhar o teólogo Leonardo Boff a uma visita ao Pirambu, onde residia com seus pais, que vieram da cidade de Canindé. Airton comenta com Boff do desejo de ter a experiência em morar só, dentro da favela, partilhar o mesmo espaço geográfico e vivenciar o dia a dia daquelas pessoas. Boff o incentiva a realizar o projeto e dá uma ajuda na compra de um barraco, uma pequena casa de taipa, em um dos lugares mais perigosos do Pirambu. Airton relembra fatos acontecidos na “casinha da praia” onde passou a residir com outros três amigos que trabalhavam com as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), que comentaremos a seguir.
No Ceará, nas décadas de 50 e 60, a atuação da Igreja no Pirambu exerceu papel de destaque na escolarização de crianças e jovens e na criação de cursos profissionalizantes, catequese e formação de lideranças comunitárias na educação popular, através do Movimento de Educação de Base (MEB), que merecem ser revisitados:
Elementos constituintes de uma ação pedagógica cristã, que tiveram forte influência na formação do cidadão político à luz do Evangelho e dos ensinamentos cristãos, num momento em que a Igreja toma para si a tarefa de aproximar-se das classes mais pobres da população e de preparar o homem para assumir um papel social e político na sociedade. (CAVALCANTE, 2002, p. 4).
Airton vivenciava este ambiente. Sua mãe, Dona Ilsa, uma liderança na comunidade, está presente permeando sempre sua história. Originou dela o impulso que precisava para realizar seu sonho: “meu filho, faça a coisa que seu coração pede. Deus tem um plano para cada um nós. A fé e a esperança andam juntas. A fé sem obras é morta”.
Já advogado, Airton recebia as pessoas em sua casa para dar apoio jurídico e social nas questões de violação dos direitos humanos. Posteriormente este atendimento informal passou a ser o Centro dos Direitos Humanos do Pirambu. O advogado conta que nesta experiência no Grande Pirambu, mudou-se seis vezes de lugar “para não criar lodo”, isto é, vínculo de acomodação. Chegou em um momento de crise. Uma fábrica de peles que empregava muita gente faliu, não pagou os direitos dos funcionários. O povo invadiu o local, houve saques das máquinas e a polícia entrou com violência no bairro.
Airton constatou que na maioria dos casos de pessoas que o procuravam não havia necessidade de procedimento jurídico. As pessoas iam para falar das suas necessidades básicas, transmitir seu sentimento de abandono, fome, depressão e em alguns casos perda da identidade com crises psicóticas. Ao perceber a necessidade de cuidados psiquiátricos ele encaminha os casos a seu irmão, o psiquiatra Adalberto Barreto, que faz atendimento, juntamente com seus alunos residentes do Hospital das Clínicas da Universidade Federal do Ceará (UFC). Era evidente a necessidade das pessoas serem ouvidas.
O paradigma que dava sustentação às referências sociais da comunidade do Pirambu, migrantes do sertão com referências culturais muito distintas das encontradas na periferia da cidade, fazia com que esta população sofresse grandes abalos: “a crise é a exaustão de um modelo de interação, de um modelo de comunicação, quer seja afetivo, econômico, político ou religioso (...) se exauriu, precisa ser reconstruído. É verdade que a crise provoca sofrimento, mas oferece uma oportunidade para se dar um salto qualitativo” (BARRETO, 2005, p. 110). O educador Paulo Freire, nos fala da situação limite do indivíduo, que se adequa ao clima que se apresenta na favela do Pirambu:
O opressor sabe muito bem que esta inserção crítica da massas oprimidas, na realidade opressora, em nada pode a ele interessar. O que lhe interessa, pelo contrário, é a permanência delas em seu estado de “imersão” em que, de modo geral, se encontram impotentes em face a realidade opressora, como “situação limite” que lhe parece instransponível. (FEIRE, 1979, p. 41).
O crescente número de pessoas que chegavam ao hospital, semanalmente, vindas do Pirambu, tornou inviável o atendimento no Hospital. Adalberto compreendeu que a lógica da consulta médica também não atendia a necessidade dos problemas emocionais e psíquicos em sua amplitude: “a maioria dos problemas era sofrimento, não era patologia”.
Adalberto marcou um primeiro encontro com estas pessoas necessitadas de tratamento psíquico, juntamente com seus alunos-residentes em Psiquiatria, embaixo da sombra de um cajueiro na comunidade de Quatro Varas. Foi improvisada uma roda de terapia. Sentadas no chão, em troncos de árvores, em cadeiras e alguns em pé. Adalberto lembra-se das palavras com que iniciou a terapia comunitária:
Nós não viemos somente curar vocês, viemos também nos curar de nossa alienação universitária. Eu sou médico e estudei na universidade. Todo mundo é doutor de sua própria vivência. Cada história vivida é uma lição aprendida. Nossa terapia será a partilha desta sabedoria aprendida com nossas vidas. [3]
A mudança de paradigma apresentada à comunidade por Adalberto tem ressonância na filosofia de Paulo Freire quando afirma:
O radical comprometido com a libertação dos homens, não se deixa prender em “círculos de segurança” nos quais aprisione também a realidade. Tão mais radical, quanto mais se inscreve nesta realidade para, conhecendo-a melhor, melhor poder transformá-la. Não teme enfrenta-la, não teme ouvir, não teme o desvelamento do mundo. (FREIRE, 1979, p. 24).
O método instituído por Paulo Freire a partir de sua prática pedagógica, em articulação com os carentes sociais e culturais do estado de Pernambuco, revoluciona a maneira do educador como o detentor de poder:
Enquanto educa, é educado, em diálogo com o educando que, ao ser educado, também educa. Ambos, assim, se tornam sujeitos do processo em que crescem juntos e em que os argumentos de autoridade já não valem. E para ser autoridade, funcionalmente, é necessário estar a favor da liberdade e não contra a mesma”. (FREIRE, 1996, p. 32).
1.1. Movimentos Sociais no Brasil nas décadas 1960-1980
Na década de 60, em quase todos os paises latino-americanos, havia uma crescente conscientização acerca dos reais mecanismos produtores do subdesenvolvimento que gerava uma grande inquietação. Leonardo Boff elucida este momento: “este não consiste apenas num problema técnico nem somente político. O subdesenvolvimento surge como um desenvolvimento dependente e associado ao desenvolvimento dos países ricos. Esta dependência significa opressão em nível econômico, político e cultural”. (BOFF, 1981, p. 23).
Paulo Freire nos diz da busca da liberdade do indivíduo no contexto dos países subdesenvolvidos: “só existe no ato responsável de quem a faz. Ninguém tem liberdade para ser livre: pelo contrário, luta por ela precisamente porque não a tem. (...) É condição indispensável ao movimento de busca em que estão inscritos os homens como seres inconclusos”. (FREIRE, 1979, p. 35). Por este prisma pode-se entender e compreender os movimentos sociais do Pirambu. Em uma entrevista Adalberto, define a população alvo da terapia comunitária:
São os grupos que vivem em contexto de desagregação e exclusão social, muitas vezes agravados pelas migrações forçadas. Nesses contextos encontramos não somente a pobreza econômica mas a pobreza cultural, fragilidade de laços sociais, incapacidade de se organizar de forma mais democrática e, sobretudo, uma auto-imagem desvalorizada, baixa auto-estima, que muitas vezes culmina na perda da própria identidade e dignidade. (ADALBERTO, 2000)[4]
Na década de 1980, quando tem início a proposta terapêutica comunitária, diversas expressões dos movimentos sociais estavam centrados no potencial de transformação social e viveram o seu momento de glória. Emergiram no cenário político brasileiro com "novos personagens que adentraram na cena política depois de um longo período de refluxo imposto pelo regime militar”. (BARBOSA, 2009, p. 13-18).
A partir de 1978 os movimentos sociais no Brasil ressurgem para viver uma década ascendente, impulsionados pelas lutas massivas com os metalúrgicos do ABC que abrem caminho para novo patamar de politização. Neste contexto a pedagogia libertária de Paulo Freire se atualiza em diversos movimentos sociais populares, com formas renovadas, uma vez que insere o homem em seu meio, sua cultura. As lutas de classe emergem de um refluxo imposto pelo regime militar (1964 a 1985) e darão origem a uma multiplicidade de práticas coletivas, muitas delas oriundas das classes menos favorecidas da população:
O ideal de uma politização da consciência dos oprimidos através do método da educação popular fortaleceu os movimentos sociais que surgiram nas décadas 70 e 80, quando a participação popular passou a representar uma ferramenta indispensável para a superação dos conflitos que a sociedade brasileira enfrentava naquele período. É neste período que se encontram vários movimentos, como: os Movimentos de Educação de Base (MEB), ligados à Igreja Católica, os Movimentos de Cultura Popular (MCP) voltado para projetos artísticos e culturais, os Centros Populares de Cultura (CPC) o movimento universitário da União Nacional dos Estudantes (UNE). (GIFFONE, 2008, p. 16)
As Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) ligadas principalmente à Igreja Católica, incentivadas pelo Concílio Vaticano II (1962-1965), se espalharam pelo Brasil e pela América Latina, principalmente nos anos 1970 e 80, com objetivo da leitura do Evangelho em articulação com a vida das pessoas da comunidade. Através do método ver-julgar-agir buscam olhar a realidade em que vivem (VER), julgá-la com os olhos da fé (JULGAR) e encontrar caminhos de ação impulsionados por este mesmo juízo à luz da fé (AGIR). A ação encontra respostas variadas segundo as circunstâncias, transcendendo os limites das igrejas. Estas comunidades impulsionaram a criação de clubes de mães, associações de moradores, inserção no movimento operário e outras iniciativas que fortaleceram o movimento social.
Surgem iniciativas autônomas de educação popular que se multiplicam explicitando o caráter político-pedagógico por meio de experiência de aprendizagem gerada com exercícios repetidos de ações rotineiras existentes na realidade social como forma de desmistificar a autoridade: “A libertação, por isso, é um parto. E um parto doloroso. O homem que nasce deste parto é um homem novo que só é viável na e pela superação da contradição opressores-oprimidos, que é a libertação de todos” (FREIRE, 1979, p. 36).
1.2. Perfil do Pirambu[5]
O bairro do Pirambu, local que está inserido o Projeto Quatro Varas, tem uma tradição de luta. É um ícone na atuação por direitos humanos em Fortaleza. O movimento social
ganhou força quando um grupo de moradores percebeu que podia reclamar por seus direitos e melhorar sua condição de vida por meio de organização política.
A origem dos moradores da favela foi se constituindo com a chegada dos migrantes que deixam a zona rural em períodos de seca, em meados da década de 30:
Ao chegarem a capital, eram enviados para áreas de concentração construídas com a finalidade de reuni-los em único lugar, mantendo-os sob o olhar das autoridades e com o objetivo de oferecer-lhes “proteção” (...). Vale salientar que as maiores manifestações populares ocorridas no bairro, a partir de meados dos anos 50, surgem de um movimento de base católica, com a chegada do padre Hélio Campos, cujos discursos e práticas tinham caráter religioso, a exemplo do que ocorria em outras comunidades no País. (CAVALCANTE, 2002, p. 5).
Com o apoio da Igreja Católica a organização social comunitária visava, sobretudo, fortalecer a solidariedade cristã entre os moradores e resolver os problemas da comunidade paroquial, entre eles a falta de escola. Posteriormente foram sendo sistematizadas questões de luta política, com proporções que se fizessem ouvir pelas autoridades:
Para os idealizadores da prática educacional cristã do Pirambu, a educação iria representar um papel de grande valia para a conduta e a moral dos cristãos, levando-os a desenvolverem atitudes perante Deus, os homens e a Igreja. Essas idéias reformadoras proliferam-se, internacionalmente, em muitas instituições de caráter católico, como podemos constatar nos documentos escritos pelo papado, que ilustram essa doutrina, entre eles: as Encíclicas de Pio XI e Pio XII Divini Illius Magistri, as Encíclicas Sociais de João XXIII Mater in Magistra – essa em especial – de 1961 e Pacem in Terris, de 1963 cujo conteúdo das mensagens insiste no importante e necessário trabalho a ser realizado em favor das camadas mais pobres e contra as injustiças sociais, observadas principalmente na América Latina. E, ainda, a Declaração Sobre Educação Gravissimum Educations dos documentos do Concílio Vaticano II. (CAVALCANTE, 2002, p. 5,6).
Mas, foi em 1962, após anos de repressão, que os moradores conseguiram a desapropriação de um terreno para que as casas de uma ocupação fossem regularizadas. No dia 1º de janeiro de 1962, cerca de 20 mil pessoas saem em marcha do Pirambu para a Catedral Metropolitana e ao Palácio do Governo para reivindicar das autoridades competentes a desapropriação das terras e despertar a sociedade para o grave problema social que afligia os habitantes do bairro:
A Grande Marcha do Pirambu assinalou para a população de Fortaleza a indiscutível necessidade de se criar e desenvolver programas sociais para resolver a questão da moradia e da miséria social urbana, alargada pela migração rural e pelas desigualdades econômicas daqueles anos. A Marcha foi uma iniciativa da comunidade, liderada pelo Padre Hélio Campos e apoiada por alguns setores da sociedade, como a imprensa local e a união estudantil”. (CAVALCANTE, 2002, p. 1).
A Marcha tem destaque de página no jornal O Nordeste - "O movimento por uma Reforma Social Cristã, esboçado em largos setores influentes de nossa cidade e agora largamente prestigiado pela passeata do Pirambu, ganha corpo na opinião pública e se afirma credor da confiança do povo”. (CAVALCANTE, 2002, p. 1).
Na década de 1970 não havia notícias significativas dos movimentos populares locais, enquanto em todo o país novas formas de luta estavam em vigor. O Pirambu retoma seu lugar de terreno fértil para a emergência dos acontecimentos de exclusão social e da falta de perspectivas daquela comunidade, afirma Giffoni:
Dois importantes fatores ali se conjugavam: as necessidades prementes da população que sofria grandes privações e a existência de lideranças prontas para se manifestar. Em meados de 1976 desencadeiam-se lutas específicas por educação, saneamento, e outras, em sua maioria encaminhadas pela entidade “União dos Moradores da Rua São Cura D’Ars”, que surgiu entre 1975 e 1976, tendo como primeiro presidente um operário de uma pequena indústria de móveis, o Sr. José Lopes de Macedo, “Seu Zequinha”[6]. (GIFFONI, 2008, p. 106).
1.3. Projeto Quatro Varas
Para chegar na Terapia Comunitária situada no espaço físico do Projeto Quatro Varas devo seguir pela Avenida Presidente Castelo Branco, também conhecida como “Avenida Leste-Oeste”, que nasce na Praia de Iracema, em frente ao Centro Dragão do Mar.
A paisagem do lado direito, da orla, vê-se o mar esverdeado, um cartão postal turístico da cidade. O bairro começa no pólo de lazer, construído no local onde funcionava um antigo kartódromo. Deste local até chegar às proximidades do projeto encontramos um intenso movimento de pessoas, moradores, trabalhadores, mulheres e crianças que circulam pelas calçadas. Nas casas construídas umas junto às outras percebemos a precariedade das habitações que trazem seus moradores para as estreitas calçadas, aumentando o fluxo de pessoas.
Tenho como ponto de referência para chegar ao local do Projeto Quatro Varas a Rua Grito de Alerta, na favela do Pirambu, para ali perguntar o endereço, uma vez que há alguns anos não vou lá. Paro o carro próximo de uma garota de uns 16 anos, de uniforme escolar, e de duas senhoras sentadas na calçada, para saber qual o beco que dará acesso ao projeto. A garota morena, com olhos pintados, me diz preocupada: “Fia, não pergunte pra qualquer um não. Preste atenção e entre na terceira entrada. Cuidado pra não entrar na segunda que é perigoso. Se passar o local, entre no beco seguinte sem perguntar novamente. A quarta entrada também dá pra sair no projeto”. Este diálogo me introduz no clima tenso da favela do Pirambu. Adalberto faz uma leitura e contextualiza o nome das ruas do local:
A comunidade de Quatro Varas é uma das cem comunidade que compõe a imensa favela do Pirambu, palco de violência e despejos. Os nomes das ruas evidenciam as histórias dos excluídos e das lutas que condicionam os espíritos: “Rua do Avanço”, onde cada dia se instalavam novas casas e lembrava que a luta deveria continuar, que a resistência não devia ser destruída com as casas. “Rua Grito de Alerta”, de onde partiam os alertas “lá vem a polícia, vamos resistir...” (BARRETO, 2005, p. 162).
Ao chegar em frente ao local do projeto um rapaz de camiseta azul, com a identificação “Projeto 4 Varas”, abre imediatamente o portão de ferro. Estaciono meu carro embaixo da sombra das árvores. Posso sentir a atmosfera agradável do ambiente, que se assemelha a um sítio, com cajueiros frondosos, coqueiros e as hortas de plantas, muito diferente da tensão transmitida pela garota lá fora. Há bancos de alvenaria e um caramanchão onde crianças e adultos conversam. Ao fundo as construções cobertas de palha.
Sou recebida pela Ruth, na área administrativa do projeto. Me identifico e informo qual é o meu objetivo da visita. Quando falo do meu objeto de estudo “Dimensão da fé na terapia comunitária” ela considera importante e me informa que está trabalhando no projeto há cinco meses e que frequenta a terapia comunitária desde 2007. A terapia comunitária começa às 14h30. Seu Zequinha[7], que já conheço de visitas anteriores ao projeto, conduzirá a terapia.
Ruth e as pessoas que são auxiliares do projeto usam camisetas com a identificação “Projeto 4 Varas - Movimento Integrado de Saúde Mental Comunitário”. Na parte de trás, com letras grandes – “A união faz a força”. Outra camiseta usada diz “projeto 4 varas – “criando vínculos”, ou “nós te apoiamos”.
Atualmente, no âmbito do Projeto existem edificações bem estruturadas para atender as diversas demandas da comunidade, sejam elas na área das artes, com o Atelier de Arte e Terapia que ajuda na recuperação e inserção social de jovens e crianças em situação de risco; a Casa do Acolhimento que possibilita pessoas passarem períodos de repouso, recuperar-se de enfermidades, longe da rotina e dos afazeres; a Farmácia Viva que resgata o vínculo com a terra e os conhecimentos da medicina popular com o plantio e produção de produtos com plantas medicinais; a Oca da Saúde Comunitária com salas bem equipadas de massoterapia e fitoterapia; o Salão Terapêutico onde é realizada a terapia comunitária e o Regate da Auto-estima; o Teatro Infantil que traz a reflexão do cotidiano de crianças e jovens; Escolinha Casa de Maria destinada ao reforço escolar e a área administrativa que mantém a Casa da Memória, com formação de pessoas da comunidade na área de vídeo que mantém o registro da Terapia e das mudanças ocorridas ao longo dos anos.
O nome do projeto Quatro Varas, conforme conta Airton Barreto em uma entrevista em 1996, foi sugerido à comunidade pelo Padre Henry Le Boussicaut, francês, que chega a Fortaleza em 1985/86 para conhecer e participar da experiência das Comunidades Eclesiais de Base. Fica um período na Diocese do bispo Dom Fragoso, seguidor da Teologia da Libertação, na cidade de Crateús, mas em uma vinda a Fortaleza conhece Airton Barreto que já residia na favela e vem morar no mesmo espaço “dos pobres do Pirambu”, em uma época que a população da favela inicia o processo de tornar-se comunidade. Em um pôster/painel no salão da terapia, exposto de forma permanente, conhecemos parte da trajetória desse missionário que em uma reunião com a comunidade sugere com ênfase o nome de “Quatro Varas”.
Padre Henry conta para os presentes a história de um velho que antes de morrer chama seus quatro filhos e pede que cada filho pegue uma vara da floresta e retorne ao seu leito. Quando voltam ele pede a cada um quebre sua vara, o que fazem com facilidade. Depois o velho amarrou-as a uma corda e pediu que quebrassem novamente. Nenhum dos filhos conseguiu quebrar. O velho deixa a seus filhos a seguinte lição - que enquanto estiverem unidos nada nem ninguém irá conseguir quebrá-los, separá-los. A comunidade toda aplaudiu e aprovou o nome.
Airton relembra com carinho a impressão do primeiro contato com Padre Henry: “figura miúda, de olhos vivos”. Nesta época, em 1985/86 havia tantos conflitos sociais no Pirambu que Airton revela que estava perdendo a fé: “no nosso primeiro encontro, quando estendi a mão pra cumprimentá-lo ele me deu um tapinha no rosto. Achei estranho, não o conhecia para que tivesse essa intimidade. Hoje compreendo que foi para me despertar, um encontro de profetas, como analisa Adalberto”. Padre Henry não poupava esforços de estar junto da comunidade, trabalhando e lutando ao seu lado para impedir a polícia de derrubar os barracos ocupados sobre as dunas do Pirambu, além de dar resistência e incentivar a comunidade. Presenciando sua força e energia para lutar junto à comunidade, Airton se fortalece.
Com frequência, Adalberto Barreto manifesta o carinho pela coragem do seu irmão, Airton, cuja opção de compartilhar o espaço geográfico dos excluídos, a favela, o levou a democratizar seus conhecimentos, conforme consta na dedicatória de seu livro Terapia Comunitária Passo a Passo.
1.4. Adalberto e sua identidade
Em um texto de Adalberto - Itinerário de vida - podemos conhecer a motivação deste homem da ciência. Nascido na cidade de Canindé, cidade de romarias no sertão nordestino, tem a infância vivida em um mundo mágico-religioso de histórias de fé relacionadas a São Francisco que possui um perfil de protetor, médico e amigo, que a todos acolhia curando as doenças do abandono, oferecendo ao peregrino a possibilidade de pertencer a uma grande família espiritual. Este universo de cura dos doentes e dos infelizes marcou sua maneira de viver.
Ainda hoje no Projeto Quatro Varas há em alguns locais, ornamentando, peças em madeira de ex-votos, que representam partes do corpo humano que foram curadas por machucados ou sofrimentos dos peregrinos de Canindé. Estas peças são depositadas na casa dos milagres, ao lado da Basílica de Canindé, testemunhando o poder de cura do santo protetor. O universo cultural deste ambiente interiorano é revelado por Adalberto, nas entrevistas concedidas durante a minha pesquisa em 1996:
Havia muitos curandeiros, rezadeiras, umbandistas, espíritas - homens e mulheres que devotavam suas vidas a cuidar dos pobres doentes. Cada um destes personagens possuía seu arsenal terapêutico para combater a doença e o sofrimento: as rezadeiras com as rezas mágicas; os raizeiros, suas raízes e cascas de árvores; os médiuns espíritas com seus rituais de invocação dos espíritos dos mortos; os umbandistas com seus rituais sonoros, danças e cânticos, bem como seus transes terapêuticos. Apesar de suas diferenças, eles estavam unidos pela mesma fé e pelo mesmo desejo: o de servir aos que sofriam, e ajudá-los a saírem de um verdadeiro labirinto imposto pela vida.
Reconheço no Projeto Quatro Varas a reunião de todas estas vertentes de cura que possibilitam a teia para acolher as pessoas com necessidade de saúde e de bem estar. Adalberto revela que desde menino sentia-se chamado a “salvar” os outros, os mais pobres, os mais infelizes:
Daí porquê, tanto insisti com meus pais, para que eles me mandassem para o seminário. Eu desejava ser padre para salvar as almas ameaçadas pelos prazeres materiais da vida. Havia algo a ser feito por aqueles que, já ameaçados de morte pelos acidentes da vida e das doenças, poderiam perder suas almas. Mais tarde, quando fazia medicina, eu descobri um outro aspecto da vida: a importância do corpo físico. Corpos de homens, mulheres e crianças, mutilados, em busca da saúde do corpo material. Com esta descoberta da materialidade do corpo, eu sentia-me chamado a salvar este corpo doente e sofrido. (BARRETO, 2005, p. 11).
Adalberto estudou teologia, medicina, doutorou-se em psiquiatria e antropologia. Entretanto o mundo acadêmico exigia renúncia às suas crenças. Esta “crise” o levou a dar o salto para uma experiência de uma vida mais plena. Ele próprio conta as motivações pessoais que o levaram à comunidade do projeto Quatro Varas:
Parecia que, para eu tornar-me um “homem da ciência”, eu teria que renegar a minha própria cultura. Eu não poderia mais exprimir minhas crenças, sem me expor às criticas de meus colegas. (...) Eu sentia-me desarmado: Como responder às exigências de uma ciência, baseada na materialidade das coisas, se aquilo que me estimulava, pertencia a uma outra dimensão da vida, pertencia ao mundo invisível, ao qual a ciência não permitia ter acesso? Muitas vezes, eu me questionava: o que ficaria de um homem, se lhe fosse retirado suas crenças, seus valores, suas convicções, que fazem dele um nordestino, um sertanejo? (...) Entretanto, estes dois universos me seduziam. (...) O mundo da ciência, por suas experiências e explicações científicas palpáveis, permitia-me aprender a fazer um certo número de coisas que eu concebia como possível, no meu universo mágico-religioso. (BARRETO, 2005, p. 8).
Nos seus estudos buscou estabelecer uma relação entre a teologia, medicina e filosofia, que permitiram unir desejo e preocupação em combater o mal e salvar, isto é, curar o homem ameaçado: “a medicina e a filosofia permitiram-me mergulhar no universo biológico, existencial e religioso do homem. (...) compreender que toda verdade sobre o homem não pode vir senão de um diálogo sério e respeitoso da diversidade dos elementos que a constituem”. (BARRETO, 2005, p.11).
Mais tarde veio a concluir doutorado em Psiquiatria e Antropologia: “a filosofia ensinava-me que curar as partes dos corpos não era a mesma coisa que curar o homem. Reduzir o homem a um de seus aspectos era o mesmo que mutilá-lo ainda mais e dificultar a sua busca de saúde e salvação”( BARRETO, 2005, p. 11).
Relativo ao seu sentimento de fé e da busca de novas perspectivas de vida para os indivíduos da comunidade do Pirambu, Adalberto, mediante a pergunta da avaliação que faz de seu trabalho, responde:
Esses anos de trabalho vieram me confirmar a idéia de que é possível articular o saber científico ao saber popular, unir academia e comunidade, e que é possível fazer um trabalho mais solidário. Acho que o desafio do novo milênio, é o de trabalhar mais a solidariedade e a justiça, porque a desigualdade é grande. Se a gente perder a dimensão da solidariedade para com os pobres, e para com os mais fracos, perderemos a nossa dimensão do humano. A terapia comunitária permite a gente construir a paz, trabalhar a intolerância. A terapia comunitária tem permitido que se expressem o pai de santo, o ateu, o cristão. E assim estamos fazendo um trabalho transdisciplinar e transcultural.
Adalberto analisa ainda a maior perda que fica evidenciada na migração do homem do sertão para a cidade: “a perda de sua identidade cultural”. A luta pela sobrevivência, marcada pela violência, competição e individualismo e o choque destes dois universos antagônicos para esta população é mais uma agressão e um desafio permanente para a sobrevivência, tanto no contexto da fé quanto no social.
A criação da Terapia Comunitária no Projeto Quatro Varas tem o objetivo de reintegrar estes indivíduos e criar um espaço de reflexão, reposição energética e estímulo à descoberta dos valores pessoais e culturais colocados a serviço das dinâmicas individuais e coletivas, afirma Adalberto:
A antropologia trouxe-me uma visão do universo cultural do homem. Eu aprendi a compreender que toda cultura, todo indivíduo, tem direito a diferença, e que, a cultura responde a um desejo maior do ser humano, o de nutrir a sua identidade. Ser diferente é a razão maior de ser homem. Combater a diferença, é um ato de dominação e de empobrecimento da humanidade. (BARRETO, 2005, p. 12).
1. 5. Descrição da terapia comunitária
A população do Projeto Quatro Varas, periferia da cidade de Fortaleza, local de extrema miséria, sem nenhum apoio do Estado, mobiliza em Adalberto, no ano de 1987, a necessidade de construir algo permanente, de amparo, frente à situação de abandono em que estavam os homens, mulheres, jovens e crianças daquela comunidade.
Em sua origem, a terapia consistia em uma reunião informal de pessoas da comunidade Quatro Varas com Adalberto e seus alunos. Ela se configura inicialmente como espaço de escuta e vai se constituindo ao longo do tempo numa abordagem terapêutica e preventiva em saúde mental, na qual as pessoas se cuidam e se transformam através do uso da palavra, da formação de vínculos e de redes de apoio social: “decidi criar o Movimento Integrado de Saúde Mental Comunitária, e, consequentemente a Terapia Comunitária Sistêmica Integrativa. (...) Desde então, todos estes homens, mulheres e crianças tornaram-se meus amigos, meus irmãos e minha família”. (BARRETO, 2005, p. 16).
A Terapia Comunitária Sistêmica Integrativa está fundamentada teoricamente sobre cinco pilares:
● Pensamento Sistêmico - percebe a pessoa na sua relação com a família, com a sociedade, com seus valores e crenças, contribuindo para a compreensão e transformação do indivíduo; (BARRETO, 2005, p. 20).
● Teoria da Comunicação - todo comportamento tem valor de mensagem numa ação interacional, a atividade ou a inatividade, as palavras ou o silêncio, mesmo não intencionais, possuem valor de mensagem: “a riqueza e variedade das possibilidades de comunicação (...) nos convidam a ir além das palavras, para entender a busca desesperada de cada ser humano pela consciência de existir e pertencer, de ser confirmado e reconhecido como sujeito e cidadão”; (BARRETO, 2005, p. 20).
● Antropologia Cultural - ressalta que os valores e as crenças são fatores importantes na formação da identidade do indivíduo e do grupo: “(...) a cultura é um elemento de referência fundamental na construção de nossa identidade pessoal e grupal interferindo, de forma direta, na definição do quem sou eu, quem somos nós. (...) Se a cultura for vista como um valor (...) podemos construir uma sociedade mais fraterna e mais justa”. (BARRETO, 2005, p. 21).
● A Pedagogia de Paulo Freire – traz uma nova reflexão ao ato de ensinar: “ensinar é o exercício do diálogo, da troca, da reciprocidade (...) o respeito e a aceitação da diversidade sem discriminação e preconceitos também se fazem presentes na teoria de Paulo Freire”. (BARRETO, 2005, p. 22).
● A Resiliência - capacidade dos indivíduos, famílias e comunidades de superarem as dificuldades contextuais, saber este que tem permitido aos pobres e oprimidos sobreviverem através dos tempos:
Não tentamos diagnosticar os problemas, nem os meios de compensá-los, pelo contrário, a meta fundamental da Terapia Comunitária é identificar e suscitar as forças e as capacidades dos indivíduos, das famílias e das comunidades (...) superar as dificuldades impostas pelo meio e pela sociedade. (BARRETO, 2005, p. 24).
A terapia comunitária ainda hoje, após 23 anos de seu início, é realizada semanalmente, às quintas-feiras à tarde.
Aprofundando-se na análise da história da terapia pode-se finalmente concluir que ela é a atividade geradora e organizadora de todas as outras, que foram surgindo, a partir das demandas suscitadas pelos primeiros participantes e pela inspiração de Adalberto, que, a partir da escuta, procurava meios de elaborar e sistematizar cada uma das modalidades terapêuticas e outras atividades que com elas dividem o espaço do Projeto. (GIFFONI, 2008, p. 40).
A comunidade participante da Terapia Comunitária é mobilizada para se inserir no contexto apresentado na roda de terapia ajudando a cada uma das pessoas presentes a sentirem-se membros efetivos da comunidade. Com isso, gradualmente, uma nova ciência social se apresenta com a atenção respeitosa à fala de cada participante. Segundo Adalberto:
A ética que orienta a proposta da Terapia comunitária busca: romper com o isolamento entre o "saber científico" e o "saber popular" , fazendo um esforço no sentido de se exigir um respeito mútuo entre as duas formas de saber, em uma perspectiva de complementaridade sem rupturas com a tradição e sem negar as contribuições da ciência moderna; alcançar a solidariedade e o respeito ao processo de libertação do homem que sofre, centrado sua ação no encontro com outras pessoas que vivem na mesma situação, para que vivenciem juntos, na comunidade, o acolhimento, a partilha de suas descobertas, a cura e a libertação; considerar a ecologia do espírito que se manifesta em respeito à diversidade cultural e a seus sistemas de representação. (BARRETO, 2005, p. 29).
A formação de terapeutas comunitários acontecia, no início, através da Pastoral Nacional da Criança (CNBB) que possibilitou divulgar a Terapia Comunitária por todo o Brasil. Atualmente existem grupos de formação realizados por Universidades, ONGs, Secretarias de Saúde Municipal e Estadual. Faz parte do Departamento de Saúde Comunitária da Universidade Federal do Ceará (UFC) em parceria com uma ONG, o Movimento Integrado de Saúde Mental Comunitária (MISMEC) e da política pública da Secretaria Nacional Anti–Drogas (SENAD). A modalidade está inserida na rede do Sistema Único de Saúde (SUS) em 27 Estados brasileiros, com 36 polos formadores de Terapeutas Comunitários, os quais já capacitaram mais de 12.000 terapeutas comunitários com ênfase em questões de álcool e outras drogas, que estão atuando nos grandes centros urbanos onde essas questões trazem muito sofrimento para as famílias. A ampliação do âmbito da Terapia Comunitária resultou na criação da Associação Brasileira de Terapeutas Comunitários.
Na minha primeira visita para o presente estudo, conduz a terapia o Sr. José Lopes de Macedo, “Seu Zequinha”[8], que participa do projeto desde janeiro de 1993. Ele fez o curso de terapeuta comunitário e também trabalha com massagem (massoterapia). Quando chego ao local, as cadeirinhas de madeira com o encosto inclinado, que dão apoio confortável ao corpo, estão dispostas em forma de um grande círculo. É um ambiente aconchegante e acolhedor. Seu Zequinha irá conduzir a terapia neste dia. Entra no salão com uma bolsa verde, surrada, a tiracolo. Senta-se na cadeira e tira as alpercatas, colocando-as ao lado. Ao me apresentar, informo o motivo da minha presença, e pergunto se é preciso tirar as sandálias. Ele fala para fazer da maneira que eu achar melhor. Uma pessoa chega, Dalila, de vestido preto; cumprimenta Seu Zequinha. Em tom de brincadeira, ele pergunta: “está viúva de que marido”? É uma senhora de uns trinta anos, alegre e simpática. Sinto um clima de descontração. É uma colaboradora do projeto e auxilia na condução da terapia. Ela chama as pessoas que estão em um caramanchão ao lado, avisando do início da terapia.
O salão da terapia é uma construção rústica erguida em uma base de cimento redonda. No piso de cimento há o desenho de uma enorme teia de aranha[9], tomando todo o salão. O ambiente aberto é sempre ventilado pela brisa do mar ali próximo. Em vez de paredes, cipó trançado. As duas portas são de bambu com base de madeira. A estrutura da cobertura em madeira recebe as folhas de carnaúba dando espaço para abertura de vidro no topo mais alto, o que assegura iluminação durante o dia.
As primeiras pessoas começam a chegar e vão se sentando nas cadeirinhas. Dalila senta-se ao lado do seu Zequinha. Soube depois que esta função é de co-terapeuta na condução do processo. Ela pega um caderninho e uma caneta para anotar as futuras propostas de tema. Neste dia temos poucas pessoas presentes na terapia comunitária. Somos 12: cinco homens e sete mulheres. Seu Zequinha faz alusão quanto ao número reduzido de pessoas na terapia na ocasião, apenas 12, como o movimento das marés : “tempo de maré cheia e tempo de maré seca – assim também é a vida”.
Seu Zequinha, com a voz forte, dicção clara e vibrante, dá as boas vindas e fala do privilégio de estar presente naquele momento, ali, com todos que se dispuseram a deixar seu lar para participar deste trabalho em grupo. Pergunta quem dos presentes está aniversariando naquele dia ou naquele mês, ou alguém próximo da família. Cantam-se os parabéns para os aniversariantes e cria-se um clima de confraternização entre os presentes.
Como condutor do processo, ele informa: “a terapia é um espaço de escuta onde as pessoas falam de suas inquietações, das relações humanas, de uma alegria. Ali não devemos dar conselhos, analisar, julgar - não há definição de um tema a ser colocado”. Comunica que não devemos revelar segredos.
Explica como é a dinâmica da terapia comunitária: tudo inicia em uma situação problema trazida pelas pessoas presentes. Quem quiser, pode dizer o motivo que o trouxe, sua aflição, inquietação ou mesmo uma alegria, sentimentos que necessitam ser trabalhados no processo. É anotado no caderno o nome e a questão apresentada por cada um que se manifesta. Após a exposição do sentimento, o dirigente põe em votação para a escolha do tema que será tratado naquele dia. Após a escolha, a pessoa expõe com mais detalhes a situação-problema.
Adalberto sugere ao terapeuta, caso este sinta inibição dos participantes, fazer apelo aos provérbios: “quando a boca cala, os órgãos falam, quando a boca fala, os órgãos saram”. Ou ainda, radicalizando mais: “quem guarda, azeda, quando azeda, estoura, e quando estoura, fede”. Orienta ainda que o terapeuta poderá encorajar os participantes: “você pode confiar nesta comunidade, que aqui você não será julgado, e tenha certeza de que irá receber ajuda e apoio de todos. O momento é de falarmos do que nos angustia, falarmos com nossa boca, para não termos que falar com nosso corpo”. (BARRETO, 2005, p. 65).
Após a escolha do tema por votação dos participantes é o momento de valorizar as pessoas que expuseram suas inquietações. É perguntado aos participantes se concordam com a escolha e sugerido que nas próximas sessões da terapia comunitária o tema possa ser reapresentado.
Os indivíduos presentes podem fazer perguntas para compreender e esclarecer melhor o sentimento do narrador para contextualizar, conhecer melhor a situação apresentada. Depois o terapeuta pergunta para o grupo se alguém já vivenciou algo semelhante e o que fez para superar. Neste momento os presentes podem participar dando exemplos da descoberta de uma nova maneira de agir para superar a situação de conflito. Desta maneira todas as pessoas se sentem apoiadas, participantes.
Observo que se apresenta neste contexto um ambiente de diálogo organizado, respeitoso, com espaço para a pessoa que expôs o conflito ser ouvida. Na experiência de compartilhar vivências semelhantes se apresenta a oportunidade das pessoas reviverem situações experienciadas e, com isso, auxiliar o sujeito que apresentou o conflito, com exemplos de novas condutas. Surge uma tessitura de oportunidade de trocas, de apoio, de sentir que não estamos sós nesta existência.
Seu Zequinha acompanha atentamente o desenvolvimento da terapia, fazendo correções quando necessário. Esclarece que só podemos falar da própria experiência, sempre na primeira pessoa do singular: “eu” e não “nós”, uma vez que não estamos ali para dar conselhos mas para falar das nossas vivências. Recomenda ainda que se a pessoa se lembrar de uma música que se adeque de alguma maneira à situação, poderá cantá-la, dizer um provérbio ou mesmo algo engraçado para descontrair o momento.
Dona Zilma, uma senhora de origem indígena de 76 anos, que foi curada ainda nas primeiras sessões da terapia comunitária, até então considerada louca pela comunidade, auxiliar do Projeto durante todos estes anos, entra na roda de terapia carregando uma bandeja cheia de copos descartáveis com um delicioso chá de capim santo, quentinho. Passa por todos, oferecendo enquanto as pessoas concluem seus depoimentos.
A duração da terapia é em média de duas horas. Neste período todos se sentem mais próximos. Tiveram a oportunidade de se conhecer mais, de identificar o que há de positivo em cada gesto ou atitude, excursionar em sua história de vida, relembrando alguns momentos. Desta maneira as pessoas saem com novos elementos, não estão mais se sentindo como chegaram.
Seu Zequinha informa que os meninos do teatro irão trazer uma mensagem. Entra uma garota, Maria Cristina do Nascimento, de 12 anos, há um ano no projeto, e o garoto Bruno, de 6 anos, que mora nas vizinhanças. Ficam no centro da roda. Bruno se deita como um feto ao lado da Maria Cristina. Cristina interpreta o breve texto: “Eu sou o adubo/ Junto com os raios solares/ Vamos fazer crescer/ A planta que existe em cada um de nós/ Com carinho, amor, esperança, fé, coragem, superação e vontade de viver/ Assim se faz nascer a planta que existe em cada um de nós”. Bruno lentamente vai se levantando alegremente.
Ao final, as pessoas se levantam e Seu Zequinha orienta para a confraternização com um abraço. Em seguida fazemos um pequeno círculo com nossos braços cruzados nas costa das pessoas que estão ao nosso lado e jogando nosso corpo ritmado de um lado e do outro é entoado um canto. Após este momento, as pessoas, ainda abraçadas, compartilham o que ouviram e aprenderam. Uma forma de agradecer a todos que participaram, a valorizar as intervenções, compartilhando o momento que vivenciamos.
Após este momento sinto que as pessoas estão próximas, como se já nos conhecêssemos. As conversas continuam com as pessoas se encaminhando para a saída do projeto.
A fé me ajuda na minha aceitação,
a perceber a diversidade da vida.
(Diana Barroso, cliente da terapia comunitária)
Conforme descrito no capítulo Movimentos Sociais no Brasil na década de 80, queremos contextualizar a terapia comunitária com a pedagogia libertária de Paulo Freire e a Teologia da Libertação.
Considero importante colocar a dimensão de fé do educador Paulo Freire, que disse em sua última entrevista gravada em vídeo:
Eu me situo entre os que crêem na transcendentalidade. Segundo, eu me situo entre aqueles que crendo na transcendentalidade não dicotomizam a transcendentalidade da mundaneidade. Quer dizer, do ponto de vista do senso comum, não posso chegar lá a não ser a partir de cá. Se cá, aqui é onde me acho para falar de lá; então, é daqui que parto e não de lá. Isso coloca a questão da minha fé e a minha crença, que indiscutivelmente interfere na minha forma de pensar (...) eu nunca precisei de brigar comigo mesmo para me compreender na fé. [10]
Já Adalberto, após longa experiência com o desafio de ressignificar o sentimento nas pessoas, afirma: “eu diria que a palavra-chave que pode desencadear uma transformação significativa é a palavra fé”. (BARRETO, 2005, p. 18).
Essa constatação o faz compreender a importância do indivíduo manter o acesso aos recursos culturais e religiosos para que ele possa ser uma pessoa mais plena, não prendê-las em modelos de fé, verdades e convicções de outros.
2.1. Transformação pela análise da realidade social
O método da Terapia Comunitária auxilia os indivíduos a inserir-se na mundaneidade sem desconhecer a amplitude da fé. Seu Zequinha, que conduz a terapia comunitária nesta fase da minha pesquisa revela:
A terapia me ajudou no conhecimento de quem sou eu, me conhecer mais. Sei distinguir o que precisa ser cumprido. Na terapia aprendi a ser seguro, firme. Quem sou eu? Quando se descobre quem é, a pessoa fica mais firme, busca cuidadosamente cumprir com o dever e obrigação. Se posso me comprometer com a minha palavra ou se não posso, porque se disser tenho que cumprir. É bom para o homem ser temente a Deus – o homem tem que ser sincero e pontual – sou imperfeito mas faço tudo para não ser chamado a atenção. Esse perfil eu já tinha mas com a terapia comunitária aprendi a me amar e com isso sempre vejo o outro com bons olhos.
Se os homens são dotados da capacidade de agir, falar e de se reconhecer entre si, têm, portanto, a capacidade de resistir à dominação, à violência e à mentira. Afirma Arendt: "O poder só é efetivado enquanto as palavras e o ato não se divorciam, quando as palavras não são empregadas para velar intenções, mas para revelar realidades, e os atos não são usados para violar e destruir, mas para criar relações e novas realidades” (ARENDT, 1994, p. 212).
Encontram-se, ainda, pontos convergentes no que é exposto pelo Seu Zequinha e a pedagogia do oprimido desalienante e libertadora de Paulo Freire, que une teoria e práxis por meio de ação cultural, conforme aponta Gustavo Gutierrez:
O homem oprimido percebe e modifica sua relação com o mundo e com os outros homens. Neste processo denominado por Freire “conscientização”, o oprimido extrojeta a consciência opressora que nele habita, adquire conhecimento de sua situação, encontra sua própria linguagem e torna-se, ele próprio, menos dependente, mais livre, comprometendo-se na transformação e construção da sociedade. (GUTIERREZ, 1975, p. 88)
Seu Zequinha me surpreende ao me responder que toda a opção é uma prisão, quando proponho a pergunta se a experiência da sua fé, da crença, liberta ou aprisiona: “A terapia me fez compreender que o homem pode tudo. Ele faz o chinelo para andar, o tecido e a roupa para se vestir, o avião para voar e fica morrendo de fome? Porque ele não descobriu ainda a força que tem”. Ainda segundo Gutierrez:
Precisamos além disso que a consciência crítica não é um estado a que se chega de uma vez por todas, porém um esforço permanente do homem que procura situar-se no espaço e no tempo, para exercer sua capacidade criadora e assumir suas responsabilidades. A consciência é, portanto, relativa a cada etapa histórica de um povo e da humanidade em geral. (GUTIERREZ 1975, p. 88).
Adalberto faz uma reflexão do método utilizado na terapia:
É uma "terapia para a prevenção", uma vez que permite ao excluído e marginalizado enfrentar a realidade que o ameaça. Integrado em sua cultura e em sua comunidade ele se torna consciente de seus direitos e deveres - individuais e sociais - para uma existência cidadã digna e plena. Neste sentido, prevenir é sobretudo estimular o grupo a usar sua criatividade e a construir seu presente e futuro a partir de seus próprios recursos. (...) o modelo que experimentamos se constrói no encontro da tradição e da modernidade. (BARRETO, 2005, p. 24).
2.2. Inversão da práxis estabelecida
A filosofia que nutre o programa de saúde mental comunitária rompe com o pensamento dominante - de que o povo é ignorante e nós precisamos educá-lo; que a tradição é um obstáculo ao progresso; só existe um modelo de intervenção válido:
Estamos convencidos de que toda sociedade humana dispõe de mecanismos terapêuticos válidos e culturalmente relevantes que reforçam e valorizam a trajetória de vida e da identidade de seus membros. As possibilidades de prevenção das doenças mentais bem como as formas de cura são tantas quantas são as distintas realidades, sociedades e culturas presentes na humanidade. (BARRETO, 2005 p. 28).
Na pedagogia libertadora de Freire encontramos estes princípios:
A pedagogia do oprimido, como pedagogia humanista e libertadora, terá dois momentos distintos. O primeiro, em que os oprimidos vão desvelando o mundo da opressão e vão comprometendo-se na práxis, com sua transformação; o segundo, em que, transformada a realidade opressora, esta pedagogia deixa de ser do oprimido e passa a ser a pedagogia dos homens em processo de permanente libertação. (FREIRE, 1979, p. 44)
Nas visitas recentes ao Projeto, às quintas-feiras, me encontrei algumas vezes com a Diana[11], frequentando a terapia há dois anos. Revela, em uma entrevista, o motivo de buscar a terapia:
Sofria por não aceitar o meu sofrimento. Tenho a impressão que não escolhi meu dia a dia. Não tinha gratidão, satisfação, não aceitava a realidade não me rendia a nenhuma fé. Tinha crise existencial permanente, eu não vivia, eu fugia. Estou em construção, reconstruindo a minha vida que passou a sorrir para mim. Hoje tenho perseverança, graças à fé. Tenho perspectiva de vida. Deixei o álcool total faz 5 anos. Antes tinha deixado mas tive recaídas.Aqui, juntamente com os amigos do A.A.[12] reconheci o meu tamanho, a minha força e fraqueza, a mim e do outro. Dr. Adalberto diz que a gente só reconhece aquilo que a gente conhece – como a terapia é um grupo, posso contar com as pessoas que são diferentes. Somos iguais a todos os seres humanos mas diferentes na forma. Eu sofria porque me achava diferente de todo mundo. Por isso gosto da terapia comunitária porque entro em contato com muitas pessoas, conheço e falo, o que é muito importante.
Encontro em todos os entrevistados a crença fortalecida com a participação na terapia comunitária. Constato que a fé é muito mais ampla que a realidade social. Leonardo Boff nos fala que a teologia se constrói a partir de dois lugares: “o lugar da fé e o lugar da realidade social. (...) o lugar da fé é dado e o lugar da realidade social deve ser identificado”. (BOFF, 1978, p. 7).
Diana fala do seu preconceito com a religião. Estava sem rumo, não tinha fé. A maturidade lhe trouxe um centro, uma organização. Com a terapia compreendeu a liberdade que a fé proporciona, para superar as dificuldades do seu dia a dia: “não sou mais incrédula, graças a Deus. Busco a fé nas minhas raízes. Não me sinto obrigada a ter vínculos religiosos. Minha mãe é mística, envolvida com evangelho e a umbanda. Agora meus sonhos são altos, me traz força. Eu não me aceitava”.
Seu Zequinha, em tom de confidência me diz que vê tantos casos na terapia que o amor cresce. Confirma com a cabeça a afirmação e com um sorriso nos lábios. Pergunto por que.
Por que? Porque faz a gente refletir, faz a gente pensar. Não somos tão infelizes, podemos constatar com a vida do outro. Com este aprendizado as pessoas vão tendo mais cuidado com a vida. Só dar é ruim - temos que dizer sim e não - tem que haver reciprocidade. Vai aprendendo mais. A terapia é uma escola muito boa. Sempre aparece uma situação nova e é um novo aprendizado.
A reflexão me levou à mensagem de Freire que sugere dois momentos distintos na pedagogia do oprimido, que passa a ser uma pedagogia humanista e libertadora:
Neste sentido é que toda a investigação temática de caráter conscientizador se faz pedagógica e toda autêntica educação se faz investigação do pensar. Quanto mais investigo o pensar do povo com ele, tanto mais nos educamos juntos. Quanto mais nos educamos, tanto mais continuamos investigando. (FREIRE, 1979, p. 120).
2.3 Novos alicerces da fé
Dona Cleinha, com 68 anos, participa do projeto Quatro Varas há 12 anos. É massoterapeuta e tem uma sala de atendimento com um painel/banner contando sua história. É assídua no projeto, comparecendo todos os dias da semana, de segunda a sexta-feira. Na terapia da auto-estima realizada pela manhã, às quintas-feiras, no período da presente pesquisa, está como co-terapeuta, auxiliando e recebendo a todos com alegria.
Na primeira entrevista concedida em março de 2010, informa que até antes de conhecer o projeto acreditava que tinha nascido doente: “tinha tremura, dor no corpo, dava chilique, faltava força. Chorava muito, por tudo, soluçava, não sabia porque”. Ainda solteira foi para o psiquiatra, tomava remédio:
Eu morava perto da mãe do Adalberto, a Isa, e também da Beatriz que benziam as pessoas. Quando encontrei o Benzinho[13], que fui me casar, minha tia disse que eu era a carga da doença. A minha família era muito malvada comigo. Quando me casei era anêmica, meu marido deu muita corrida comigo me levando para a emergência do hospital, mas ele também não me poupava. Eu tinha que fazer as coisas. Eu disse que ia casar para ficar boa.
Conta ainda que desde criança sempre teve uma ligação forte com a Igreja. Fez a Renovação Carismática. Levava as pessoas para Isa (mãe de Adalberto) e a Beatriz benzerem. Com o tempo aprendeu a fazer a imposição das mãos. Não conviveu com o Dr. Adalberto; quando frequentava a casa de sua mãe, ele estudava na França:
Quando eu soube do projeto eu vim para receber a massagem, porque tinha muita ansiedade. Aqui ficava bem mas quando voltava para casa começava tudo de novo. Comecei a fazer a terapia comunitária. Na terceira vez eu falei
do meu caso, o salão estava repleto de gente. Dr. Adalberto me deu uns gritos, - “se tivesse que morrer já tinha morrido”! Depois, com o passar do tempo, fui saber que o Dr. Adalberto estava me dando um choque energético. Eu não sou mais a mesma pessoa, todo mundo que me conheceu se admira. Eu comecei a trazer as pessoas pra cá mas não gostava dele (Adalbeto), tinha pavor.
Segundo Gutierrez “para Hegel o homem é consciente de si próprio - enquanto é reconhecido (por) outra consciência de si. Tal reconhecimento porém, por outra consciência supõe um conflito inicial” (GUTIERREZ, 1975, p. 36).
Desta maneira, o processo de tomada de consciência de si, pela Dona Cleinha, aparece como um agir, um sair de si mesmo, para se colocar na posição de alteridade, experienciar e aprender uma maneira nova de ser. Hoje, Dona Cleinha diz querer bem ao Dr. Adalberto e que aprendeu muito com ele.
É humano, é explosivo mas é paciente, cuida das pessoas com responsabilidade. Em primeiro lugar, pra ele, é o atendimento às pessoas. Eu penso que a vida dele é aqui. Eu já assisti muitas vezes pessoas dizerem que podem ir no consultório dele, pagar a consulta. Ele não aceita, atende a pessoa aqui mesmo e pede pra voltar aqui quando precisar.
Dona Cleinha conta que logo no início do período em que começou a participar da terapia, uma pessoa, auxiliar do projeto, transmitiu a ela um recado de Dr. Adalberto: procurar a professora, que estava dando o curso de massoterapia e fazer o curso:
O curso já tinha começado e eu nunca tinha aprendido nada. Minha mãe me pagava curso de corte e costura e um monte de outros cursos. Eu entrava e não conseguia aprender. Imagina eu entrar num curso que já tinha começado! Mas fui. A professora estranhou o pedido do Adalberto mas me recebeu e fui pegando, recuperando o que tinha sido dado. Eu amo de verdade o projeto, me realizo aqui dentro, gosto de aplicar massagem.
Com olhar bondoso e a voz carregada de alegria, Dona Cleinha me responde sobre a experiência da sua fé com a terapia comunitária: “deu uma reviravolta. Eu sempre ando com terço, com medalha, sempre gostei, desde menina. Aqui não se fala em Deus ou em Nossa Senhora , mas aqui me sinto mais perto de Deus, me encantei. Aqui é melhor que qualquer Igreja. Aqui só não muda quem não quer”.
Alguns entrevistados dizem gostar muito de Dona Cleinha, por estar sempre pronta para receber a todos, cuidando com coragem, acompanhada sempre de suas palavras de “Graças a Deus”, “Deus abençoe”, “tenha fé em Deus”, “vai com Deus”. No final das rodas de terapia quando solicitado algum cântico ela traz sempre uma mensagem religiosa bonita e significativa para o momento. Ao final de uma roda de terapia traz o cântico:
Senhor põe teu anjos aqui (bis)
Com a espada desembainhada
Senhor põe teus anjos aqui
Não deixe que os inimigos
Se escarneçam ou zombe de nós
Lava Senhor com seu sangue
Senhor põe seus anjos aqui
Senhor põe teus anjos lá em casa (bis)
Com a espada desembainhada
Senhor põe teus anjos lá em casa
Não deixe que os inimigos
Se escarneçam ou zombe de nós
Lava Senhor com seu sangue
Senhor põe seus anjos lá em casa
Dona Cleinha me diz que a terapia comunitária lhe ensinou e ainda ensina muito. Já viu pessoas chegarem no fundo do poço e que “hoje estão que é uma maravilha”:
Eu falo muito em Deus, sempre fui assim. Quando recebo uma pessoa para a massagem, eu pergunto o nome, porque a pessoa está aqui e presto muita atenção no que ela tem pra contar. Muitas vezes as pessoas querem ser ouvidas. Quando vou fazer a massagem, a pessoa já está quase boa. Jesus não teve o Simão Cirineu? Eu acredito que nós também temos, que Deus coloca alguém para ouvir os queixumes, aliviar a dor.
Seu depoimento me faz buscar uma definição sobre a teologia da libertação:
É uma teologia da salvação nas condições concretas, históricas e políticas de hoje. Essas mediações históricas e políticas atuais, valorizadas por si mesmas, alteram a vivência e a reflexão sobre o mistério escondido desde todos os tempos e revelado agora, sobre o amor do pai e a fraternidade humana, sobre a salvação. Isso é o que pretende significar na hora presente o termo libertação. (GUTIERREZ, 1975 p. 268).
Na entrevista procuro conhecer se a experiência da sua crença lhe libertou ou trouxe opressão. Com sorriso maroto e olhar vivo, me responde: “descobri que a fé liberta, mas só depois que vim pra cá. Porque quando frequentava só a Igreja, especialmente sendo carismática, tudo era pecado”. Conta com entusiasmo que no projeto aprendeu a conviver com todo o tipo de gente:
Aqui participa católico, macumbeiro, espírita, crente, tem gente de todo tipo de fé. Hoje não tenho preconceito de nada. Por que? Porque aqui habita a mão de Deus. Meu marido acha que estou em um degrau a mais que ele. No início foi o “Benzinho” que me trouxe. Ele tem um zelo pelo projeto mas não vem muito aqui. Caminhamos juntos no caminho de Deus, participamos dos ECC[14]. Participo dos trabalhos da Igreja junto com ele.
Reconheço em dona Cleinha uma mulher feliz, plena em sua vida. O amor ao seu marido, que o trata com tanta proximidade, como “Benzinho”, aos seus filhos e sua família. Imagino a contribuição e importância deste casal na orientação de outras famílias, sedimentando esta célula importante na nossa sociedade que é a família. Gutierrez nos fala desta apropriação que vejo em Dona Cleinha :
O homem latino americano ao tomar parte em sua própria libertação toma gradualmente as rédeas de sua iniciativa histórica e percebe-se como dono do próprio destino; ademais, na luta revolucionária liberta-se de algum modo da tutela de uma religião alienante que tende à conservação da ordem. (GUTIERREZ, 1975, p. 67)
Nas visitas ao projeto encontro com frequência Airton Barreto. Está sempre conversando com os visitantes e com os auxiliares do Projeto. Em uma conversa ele revela que acredita ser o Projeto Quatro Varas uma determinação Divina: “Deus não gosta de se revelar de uma vez, vai se apresentando aos poucos, como se tivesse brincando de esconde-esconde”. Me pede para ir montando o quebra- cabeça. Procura na memória as indicações da mão de Deus e vai refletindo: sua decisão de morar na favela; o encontro com Leonardo Boff que impulsionou sua decisão; o encontro com Padre Henry Le Boussicaut; a formação de Adalberto na área da teologia, antropologia e psiquiatria. Volta ao tempo para recordar histórias da sua experiência de vida:
Mamãe conta, que quando ela era criança uma pedra despencou de uma construção em uma cuia que estava levando à boca. Esta cuia desapareceu no impacto, ela escapou. Eu ainda recém nascido e praticamente desacordado, sem comer há dias. Papai querendo ir logo buscar o caixãozinho e mamãe pediu pra deixar pra mais tarde. Ela conseguiu um gergelim, fez um caldo e passou no meu corpo. Depois disso me mexi. Ela colocou uma gota na minha boca e com ela voltei a viver. Eu digo que a terapia comunitária é o gergelim de muita gente. Mamãe era uma pessoa de muita fé . Ela dizia que evangelizar é ser um caco de vidro na mão de Deus”.
Airton faz referência à história que sua mãe lhe contava, de ter visto, em uma noite, algo brilhando no lixo. Ela se dirigiu pra lá achando ter encontrado um diamante. Quando pegou era apenas um caco de vidro. Disse que a mãe gostava de contar esta história para dizer da importância do homem despertar para a vida espiritual que pode ser um caco de vidro na mão de Deus.
Adalberto afirma que o grande desafio para o povo brasileiro é conviver num mundo diversificado portanto ameaçador, sem perder sua identidade cultural e pessoal: “tem sido a religião este recurso da cultura, que tem permitido a tantos salvaguardar seus valores e crenças que conferem segurança e identidade”. (ADALBERTO, 1992, p. 4).
Há convergências no respeito à cultura religiosa e nos princípios éticos balizadores da terapia comunitária na afirmação de Gutierrez:
A secularização é, antes de tudo, o resultado de uma transformação na autocompreensão do homem. De uma visão cosmológica passa-se a uma visão antropológica, graças e sobretudo ao desenvolvimento da ciência. O homem percebe-se como uma subjetividade criadora. Mais ainda, o homem toma consciência – já o recordamos – de ser agente da história, responsável de seu próprio destino. Sua inteligência descobre não só as leis da natureza, mas também incursiona nas da sociedade, da história e psicologia. Esta nova autocompreensão do homem traz necessariamente uma forma diferente de conceber sua relação com Deus (...) na medida que oferece ao homem a possibilidade de ser mais plenamente humano. (GUTIERREZ, 1975, p. 65/66).
Um dos entrevistados, Seu José dos Santos, de 61 anos, aposentado, foi motorista profissional de uma transportadora. Tem uma fala mansa e tom de voz baixo. Me diz, com sorriso nos lábios, que é a vigésima segunda vinda na terapia: “tive um sério problema, desgosto e depressão. Chorava de dia e de noite. Passei muito tempo assim. Só por Deus estou aqui. Fui na CAPs[15] e a psicóloga e o psiquiatra me atenderam e me encaminharam para a terapia comunitária”. Pergunto ao Seu José a respeito de sua fé, se houve alguma mudança na sua crença com a terapia:
A terapia ajuda a gente se recuperar e fortalecer a fé para encontrar a paz que eu queria. Porque aqui só se ouve palavras boas, só levanta a nossa auto- estima. A fé que tenho em Deus é grande e quem faz o tratamento está sempre lembrando a importância da fé. A fé liberta as pessoas das coisas ruins e aqui a gente aprende a lidar com si próprio, ter amor, se valorizar, ter amor ao próximo. Saber viver com as pessoas, ajudar quem precisa. Não custa dar uma mãozinha.
Um dos alicerces da terapia comunitária que trabalha a visão holística do sujeito no seu contexto de mundo, fortalecendo a dimensão humanitária, encontramos na reflexão de Libânio:
Buscar ser humanidade, viver a dimensão humana em autenticidade, batalhar pelos valores éticos, percebidos em seu caráter absoluto e vinculante, é realizar o projeto de Deus que chamou a todos a serem humanidade como povo de Deus no Filho e na sacramentalidade da Igreja. Toda essa realidade já está, de certa maneira, presente no primeiro passo dado, ainda que não toda seja assim percebida e explicitada. (LIBÂNIO, 2000, p. 267).
Historicamente somos uma cultura tríplice, afirma Adalberto, referindo-se aos colonizadores portugueses, africanos e os índios: “três culturas em contato e num contexto competitivo e expoliador de riquezas materiais e humanas. Esta nova realidade imposta pela colonização era ameaçadora para a integridade das respectivas identidades, e obrigava cada cultura
a salvaguardar-se dos efeitos fragmentários deste novo contexto”. Adalberto estabelece uma relação que se mantém ainda hoje, desde o início da colonização do Brasil com a migração dos sertanejos para os grandes centros, que não os acolhe:
Em se tratando de culturas em contato, o grande perigo do encontro com o outro, com o diferente, é que este invada e possua o outro, retirando de dentro de cada um os elementos que constituem o arcabouço da identidade: as crenças, os valores, as riquezas (...). A antropologia trouxe-me uma visão do universo cultural do homem. Eu aprendi a compreender que toda cultura, todo indivíduo, tem direito a diferença, e que a cultura responde a um desejo maior do ser humano, o de nutrir a sua identidade. Ser diferente é a razão maior de ser homem. Combater a diferença é um ato de dominação e de empobrecimento da humanidade. (BARRETO, 1992, p. 2).
CAPÍTULO 3 – BENEFÍCIOS DAS RODAS DA TERAPIA COMUNITÁRIA
Me salvei, sou um novo homem.
(José dos Santos, cliente da terapia comunitária)
Uma das condições propiciadas pela Terapia Comunitária é a conversação organizada em torno do problema escolhido democraticamente entre os presentes, trazido pelas pessoas que quiseram se manifestar. Mesmo que o indivíduo não esteja no lugar de protagonista ou narrador é possibilitado a todo o grupo revisar sua própria história, rememorar seus dilemas, desafios, suas formas de enfrentamento, estratégias de sobrevivência e se posicionar, manifestando sua experiência: “todos nós precisamos de confirmação. A resposta do outro, tornada possível pela comunicação, é o alimento da nossa alma. A confirmação vem reforçar a nossa identidade, nossa auto-imagem e auto-estima. Quando existe confirmação, há crescimento”. (BARRETO, 2005, p. 215).
A oportunidade de expor suas histórias com a comunidade presente promove uma transformação na medida em que legitima o sentimento e promove a consciência crítica.
Configura-se uma oportunidade de mudança, uma vez que, dado o contexto de respeito e acolhimento, estão presentes uma grande quantidade de testemunhas diante das quais cada pessoa pode tanto ter seu sofrimento reconhecido como tal, sentir suas competências legitimadas, contribuindo para a melhora da sua auto-estima. Favorece a mudança construtiva alicerçada pelo reconhecimento dos próprios recursos de modo a poder usa-los intencionalmente como ferramentas possíveis em situações futuras. (GRANDESSO, 2007, p. 278).
Andréa, uma das entrevistadas, que há quatro semanas frequenta a terapia comunitária na busca de cura pela depressão se emociona quando fala do Seu Zequinha. Sua presença lhe passa força, fortaleza de fé, de coragem: “ele me disse que eu sou jovem e tudo isso vai passar. Aqui na terapia falam em Deus, falam da fé. É como se Deus estivesse presente na Oca, principalmente no final da terapia, que tem os cânticos e quando alguém diz uma oração”, afirma Andréa.
A terapia é finalizada no ritual de agregação, quando as pessoas estão próximas, com os braços entrelaçados formando um grande círculo. É um momento reflexivo, organizado em torno de compartilhar algum pensamento, sentimento ou idéia que alguém espontaneamente queira dizer para algum dos presentes, respondendo à pergunta – “O que estou levando daqui”.
É neste momento final que a dimensão espiritual se manifesta de maneira significativa. Muitos expressam seus valores, suas crenças, recorrem a Deus, seja em forma de orações ou cânticos. São, pois, os valores que reforçam a identidade de cada um. Esse clima de introspecção, interiorização, pode estimular as pessoas a querer manifestar seu ato de fé. (BARRETO, 2005, p. 82).
Na instrução aos terapeutas, alerta Adalberto para o acompanhamento das manifestações deste momento:
Uma coisa é falar da fé, do que ela significa para a vida; outra é querer impor às pessoas valores e uma visão de mundo (...) nestes momentos o terapeuta pode intervir, lembrando que Deus ajuda o homem através do homem e, dessa forma, alertar o grupo para a importância da escuta, da partilha e da vida em comunidade. (BARRETO, 2005, p. 83).
3.1 Consciência libertadora e experiência crítica do sujeito
A consciência libertadora nos leva à proposta da Teologia da Libertação. Como o próprio nome evidencia, esta teologia está inserida na valorização da história, da cultura e da diversidade de formas de manifestação do encontro do homem com Deus. É uma teologia cristã. Para o despertar na experiência crítica do sujeito “precisamos muitas vezes dos conhecimentos e da audácia intelectual necessários para encarar a tarefa do desenvolvimento de um homem novo por métodos distintos dos convencionais; estes sofrem da influência da sociedade que os criou”. (GUTIERREZ, 1975, p. 87).
Freire nos fala da transcendentalidade e da mundaneidade e confirma que o ponto de partida está nos homens:
Mas, como não há homens sem mundo, sem realidade, o movimento parte das relações homens-mundo. Daí que este ponto de partida esteja sempre nos homens no seu aqui e no seu agora que constituem a situação em que se encontram ora imerso, ora emersos, ora insertados. Somente a partir desta situação, que lhes determina a própria percepção que dela estão tendo, é que podem mover-se. (FREIRE, 1979, p. 85).
Ao indagar ao Seu Zequinha, no final da entrevista, se ele quer acrescentar mais alguma coisa na sua fala, ele faz uma explanação sobre a necessidade de educação para dar um basta na questão da violência na sociedade:
Eu quero falar sobre a educação, a universidade (...). É um estado dentro de outro Estado. A universidade está a serviço da sociedade ou só pra quem chega lá? Porque a universidade não educa todo mundo. Tantos estudantes, e cadê este povo? Eles deveriam ter a obrigação de ir pelo menos uma vez ao mês para a periferia e dar alguma idéia, dar a mão ao irmão que não chegou lá, dizer onde a pessoa atua e como pode colaborar. As universidades deveriam ter as regionais para discutir com a sociedade e ajudar encaminhar as prioridades. O que precisa aqui? Arte? Moradia? Música? Escola? Teatro (...) porque trabalhar é educar.
Comento com Seu Zequinha que Adalberto fez este caminho. Ele dá um sorriso e afirma: “o Brasil precisa de muitos Adalbertos”. Continua sua reflexão sobre as atitudes de Adalberto: “o que ele tem a dizer pra uma pessoa, ele só diz para ela. Ele não admite que fale de outra pessoa sem que ela esteja presente. Tem sempre um gesto de lembrança para cada um, um gesto que nos valoriza”. Segundo Gutierrez:
O homem percebe-se como uma subjetividade criadora. Mais ainda, o homem toma consciência (...) de ser agente da história, responsável de seu próprio destino. Sua inteligência descobre não só as leis da natureza, mas também incursiona nas da sociedade, história e psicologia. Esta nova auto-compreensão do homem traz necessariamente uma forma diferente de conceber sua relação com Deus. (GUTIERREZ, 1975, p. 66).
Seu José dos Santos, um dos entrevistados, frequentando a Terapia Comunitária pela vigésima segunda vez, me responde ao perguntar se existe semelhança entre o que aprende na Terapia Comunitária com sua crença:
Tem porque aprendo a me aceitar e tenho a fé que me dá esperança. Hoje resolvo as minhas coisas sozinho. Eu me sentia um inválido. Depressão é a pior doença do mundo. Só andava com meu filho. Hoje estou aqui, venho sozinho de bicicleta. Deixo na casa da minha mãe e pego outro ônibus para chegar. Moro longe, no Jardim Iracema. Na terapia da manhã aprendi a ter mais liberdade, me comunicar, receber apoio. Aqui tenho bons amigos, tudo é igual, com isso a gente se sente feliz. Rico e pobre aqui é tudo igual.
3.2. O método dialético e o resgate das raízes culturais
A Terapia Comunitária está fundamentada na Teoria Geral dos Sistemas. Adalberto afirma que as crises e problemas só podem ser entendidos e resolvidos se as percebemos como partes integradas de uma rede complexa, cheia de ramificações, que ligam e relacionam as pessoas num todo que envolve o biológico (corpo), o psicológico (a mente e as emoções) e a sociedade.
Andréa, uma das entrevistadas, que está frequentado a terapia comunitária pela quarta vez, fala do que mudou desde que começou a participar:
Mudou em tudo, principalmente a me expressar, falar o que sinto. Antes não queria falar para não preocupar as pessoas. Agora falo e no trabalho está diferente, os professores sabem, perguntam como eu estou, como é o que estou me sentindo, falo de tudo com qualquer pessoa. Não tenho medo de falar o que estou sentindo. O stress no trabalho é carregado, tem muita pressão. Quando sei que é quinta-feira, venho para cá com toda a vontade, parece que vou a uma festa. Na quinta-feira da Semana Santa não teve terapia. Fiquei com tanta vontade de vir que propus em casa, com a família, fazermos uma oca. Eles acharam legal participar, cada um fez uma proposta de tema, fizeram umas brincadeiras, demos risadas.
A perspectiva que se apresenta no ritual da terapia comunitária se constrói por meio do diálogo onde a palavra é valorizada, instrumento de transformação pessoal, de aprendizagem e autonomia para o desenvolvimento da dimensão política do homem. Esta nova maneira de ser aponta Gutierrez:
Conceber a história como processo de libertação do homem é perceber a liberdade como conquista histórica, é compreender que a passagem de uma liberdade abstrata a uma liberdade real ao se realizar sem luta – cheia de escolhas, de possibilidades de extravios e tentações de evasão – contra tudo o que oprime o homem. Este fato implica não apenas melhores condições de vida, radical mudança de estruturas, revolução social, mas muito mais: a criação contínua e sempre inacabada de nova maneira de ser do homem, uma permanente revolução cultural. (GUTIERREZ, 1975, p. 40).
Seu Zequinha, que teve atuação por muitos anos como líder comunitário, esclarece o que o levou a se envolver com o Projeto Quatro Varas e se interessar na formação de terapeuta comunitário:
Encontrei alguns elementos importantes. O principal deles é que não tem manipulação. Há perguntas sérias e objetivas com intenção social, de ajudar na auto-estima, que possibilitam respostas seguras. Isso agora sei que é um dos objetivos da terapia, ser firme, seguro, mostrar que a terapia tem uma regra, um critério, ser sincero...
Na Terapia Comunitária que tem em sua base elementos da pedagogia de Paulo Freire é natural o uso frequente de palavras utilizadas por este educador - como liberdade, diálogo, igualdade, conscientização, expressa em palavras e atitudes. Vejamos:
A existência, porque humana, não pode ser muda, silenciosa, nem tampouco pode nutrir-se de falsas palavras, mas de palavras verdadeiras, com que os homens transformam o mundo. Existir, humanamente, é pronunciar o mundo, é modificá-lo. O mundo pronunciado, por sua vez, se volta problematizado aos sujeitos pronunciantes, a exigir deles novo pronunciar. (FREIRE, 1979, p. 92,93).
A abordagem sistêmica permite ao indivíduo perceber que tudo está ligado, cada parte depende da outra. Possibilita que as pessoas se cuidem e se transformem por meio do uso da palavra, que forma vínculos e uma rede de apoio social se estabelece:
Somos um todo, em que cada parte influencia e interfere com a outra parte. Para enfrentar a vida com prazer e buscar a solução de nossos problemas pessoais, familiares, comunitários e sociais, precisamos estar conscientes de que fazemos parte desse todo. Precisamos estar conscientes da globalidade em que estamos inseridos, sem perder de vista a relação entre as várias partes do conjunto a que pertencemos. Só assim poderemos compreender os mecanismos de auto regulação, proteção e crescimento dos sistemas sociais e passarmos a vivenciar a noção de co-responsabilidade. (BARRETO, 2000)[16]
Na Terapia Comunitária a cura do indivíduo passa pelo resgate das raízes e dos valores culturais que despertam o sentido de pertença, afirma Adalberto:
Se a cultura for vista como um valor, um recurso que deve ser reconhecido, valorizado, mobilizado e articulado de forma complementar com outros conhecimentos, poderemos ver que este recurso nos permitirá somar, multiplicar nossos potenciais de crescimento e resolução de nossos problemas sociais e construirmos uma sociedade mais fraterna e mais justa. (BARRETO, 2000)[17]
Por este prisma podemos considerar a cultura como elemento referencial na construção da identidade pessoal e grupal - quem sou, quem somos. Esta visão holística do homem social, Freire aponta:
A libertação autêntica, que é a humanização em processo, não é uma coisa que se deposita nos homens. Não é uma palavra a mais, oca, mitificante. É práxis, que implica na ação e na reflexão dos homens sobre o mundo para transformá-lo. A educação que se impõe aos que verdadeiramente se comprometem com a libertação não pode fundar-se numa compreensão dos homens como seres “vazios” a quem o mundo “encha” de conteúdos; não pode basear-se numa consciência espacializada, mecanicistamente compartimentada, mas nos homens como “corpos conscientes” e na consciência como consciência intencionada ao mundo. (FREIRE, 1979, p. 77).
3.3. O Experiência libertária pela fé
Na América Latina nos anos 70 e 80 a necessidade de libertar a população de todo o continente, oprimido pelas ditaduras militares e o subdesenvolvimento, fez com que a Igreja Católica se mobilizasse para devolver a palavra e a ação aos movimentos populares, uma vez que a repressão se acentuava tornando ainda mais crítica a possibilidade de uma vida digna. Diante da necessidade de atender as demandas da área da educação, neste contexto, buscou-se inspiração na pedagogia de Paulo Freire:
Um dos esforços mais criadores e fecundos realizados na América Latina são as experiências e trabalhos de Paulo Freire, que tenciona constituir uma pedagogia do oprimido. Por meio de uma ação cultural – que une teoria e praxis – desalienante e libertadora, o homem oprimido percebe e modifica sua relação com o mundo e com os outros homens. Passa desse modo de uma consciência ingênua – que não problematiza, que superestima o tempo passado, tende a aceitar explicações fabulosas e busca polemizar, - a uma consciência crítica, que aprofunda os problemas, é aberta ao novo, substitui as explicações mágicas pelas causas reais e tende a dialogar. (GUTIERREZ, 1975, p. 88).
Seu Zequinha, de 68 anos, com sua experiência de vida acumulada no percurso de sua história, - líder comunitário no bairro do Pirambu, cliente da Terapia Comunitária, hoje terapeuta e massoterapeuta do Projeto Quatro Varas - nos fala de sua fé:
A fé tenho há muito tempo. Tinha e tenho dúvida sobre a religião. Tenho fé no que acredito. O Criador está presente no que está sendo feito com sinceridade. Deus está acima de todas as coisas. Tenho a fé para ser objetivo, ir direto nas coisas. A religião é a parte, não faz parte da terapia comunitária e nem o partidarismo. Sigo a terapia porque vejo que tem fundamento. Acredito na organização social – o mundo muda quando as pessoas mudarem, se unirem, se organizar nos bairros, nas escolas, nas fábricas, na universidade, nos sindicatos. Organização é a solução. O povo que sabe questionar é um povo que sabe o que quer; que tem uma política de paz. Não precisa mentir, nem roubar. Um povo sem o conhecimento é um coitado. Tem que aprender a se conhecer.
Gutierrez nos fala que a secularização é o resultado de uma transformação na auto compreensão do homem:
De uma visão cosmológica passa-se a uma visão antropológica, graças, sobretudo, ao desenvolvimento da ciência. O homem percebe-se como uma subjetividade criadora. Mais ainda, o homem toma consciência – já o recordamos – de ser agente da história, responsável de seu próprio destino. Sua inteligência descobre não só as leis da natureza, mas também incursiona nas da sociedade, história e psicologia. Esta nova autocompreensão do homem traz necessariamente uma forma diferente de conceber sua relação com Deus. (GUTIERREZ, 1975, p. 65,66).
Andréa, cliente da terapia, expôs sua questão na segunda visita. Gosta do ambiente que é agradável e acolhedor. Acredita que sua fé aumentou, porque agora é receptiva a conhecer grupos religiosos:
Alguns amigos querem me levar para o Shalon e eu estou aceitando ir. Antes de vir aqui eu não me interessaria. Eu tenho pedido mais fé, quero acreditar que vou me livrar dos remédios. Agora quando rezo me incluo nas orações. Antes rezava somente pelos outros. Sei que Deus me escuta porque o projeto chegou na minha vida, chegou o seu Zequinha, que tem me dado uma força boa.
Dona Cleinha, que se curou com a terapia, é massoterapeuta do Projeto. Fala, de maneira confidente, que as pessoas mais humildes são as que ela mais gosta porque manifestam a alegria e a felicidade de se sentirem incluídas: “vê a gente tratar bem e elas falam, aí eu vou na alma. Eu digo que aqui é o spa da alma – porque às vezes não é no corpo, é a somatória que dá a dor. Aqui temos condições de ficar bem. Aqui tem uma energia Divina que circula – eu acredito que aqui circula!”.
CONCLUSÃO
No período de estudo que se investigou como a fé pode ser ressignificada com o trabalho terapêutico no contexto da Terapia Comunitária, pode-se constatar que é possibilitado um acolhimento respeitoso, uma metodologia que estabelece a fluidez de um diálogo organizado, com técnicas simples de entrosamento entre os participantes, ritmo na condução da sessão, com a intervenção do terapeuta para manter o clima de confiança que rapidamente é estabelecido entre os presentes.
Confirma-se que esta dinâmica favorece um posicionamento construtivo, alicerçada no reconhecimento dos recursos individuais, onde a fala e a experiência de vida de cada participante têm sua importância e singularidade. Podemos afirmar que acontece o resgate da dimensão espiritual e o fortalecimento da fé. Esta fé é resgatada no potencial transformador do próprio indivíduo, que constatamos nos depoimentos:
● Eu tenho a liberdade para não achar que tudo é pecado. Posso sentir a presença de Deus. (Dona Cleinha);
● Houve uma reviravolta (...). Aqui só não muda quem não quer.. (Dona Cleinha);
● A terapia ajuda a gente se recuperar e fortalecer a fé para encontrar a paz que eu queria. (José dos Santos);
● A fé liberta as pessoas das coisas ruins e aqui a gente aprende a lidar com si próprio, ter amor, se valorizar, ter amor ao próximo. (José dos Santos);
● Me salvei, sou um novo homem. (José dos Santos);
● Melhorou em tudo. Compreendi que o homem pode tudo. (Seu Zequinha);
● Me ajudou no conhecimento de quem sou eu (Seu Zequinha);
● A fé me ajuda na minha aceitação, na diversidade da vida. (...) não me rendia a nenhuma fé. (Diana);
● Hoje tenho perseverança. Graças à fé, tenho perspectiva de vida. (Diana);
● Aqui criamos vínculos e isso traz a dimensão da fé. (Diana);
● A fé é fundamental. É vitamina. Você sai de casa de um jeito e quando volta da terapia você é outra pessoa (...) sempre melhorando (Diana);
● Não sou mais incrédula, Graças a Deus. Fui buscar minha fé nas raízes de mim mesma. (Diana);
Baseando-se nas intervenções espontâneas, nas entrevistas individuais, observação e análise do contexto da terapia, pode-se afirmar que há uma abertura para uma reflexão espiritual ao identificar o sofrimento, evidenciá-lo, e estabelecer estratégias socialmente compartilhadas para a superação.
A troca dessas experiências configura-se uma oportunidade de enriquecimento da situação que foi exposta e reforçada no momento final onde o terapeuta valoriza e reconhece o esforço e vontade de superação. Propostas de ação se apresentam com as experiências de conhecimentos constituídos nos variados contextos culturais, e o saber científico, permitindo a autonomia que leva ao empoderamento pessoal e comunitário.
É evidenciada na metodologia da Terapia Comunitária a filosofia de Paulo Freire, que afirma: “ninguém, melhor que os oprimidos encontra-se preparado para entender o significado terrível de uma sociedade opressora e compreender a necessidade da libertação, que não chegará por acaso, mas pela práxis de uma necessidade de lutar por ela. Esta luta será um ato de amor, com o qual se oporão ao desamor contido na violência dos opressores, até mesmo quando esta se revista da falsa generosidade”. (FREIRE, 1979, p.32).
Confirma-se ainda, a semente da Teologia da Libertação onde a salvação se dá nas condições concretas, históricas e políticas de hoje. No ritual reflexivo - o que cada um está levando de novo - a partir do contexto vivenciado, apresenta-se a oportunidade de identificar os recursos pessoais em um panorama diversificado de valores exposto pelos indivíduos presentes.
Pode-se constatar que não há mais necessidade de crer em verdades, modelos e convicções que afastam os indivíduos de si mesmo, de seu senso crítico, de suas crenças. A sua fé está liberta para crer e enfrentar as situações da realidade do mundo, realizar os seus sonhos que passam pela comunidade presente, formando uma rede solidária.
Todas estas verdades, valiosas e constitutivas do mundo e de seu mistério, passam a ser valorizadas no contexto que se apresenta, potencializando a expressão da fé e fortalecendo a construção da autonomia de indivíduos por meio da aprendizagem das competências sociais, políticas e religiosas.
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MATTOS, Carmen Lúcia G. A abordagem Etnográfica na Investigação Científica. UERJ, 2001.
Roteiro de Entrevista
Nome___
Profissão_ _______
Natural de _____________Idade______ Estado Civil _______
1. O que o fez procurar a terapia comunitária?
2. O que o fez permanecer na Terapia?
3. Em que a experiência da fé resignificou a sua vida dentro da terapia comunitária?
4. Como acontece a experiência da fé em sua vida? / Como conduz sua vida na perspectiva da fé?
5. Em que a terapia melhorou a sua vida?
6. A experiência da sua crença (fé), te libertou (ajudou a ser mais livre) ou trouxe opressão, sofrimento?
7. O que mudou na sua vida com sua crença?
8. Existe semelhança entre o que aprende na terapia com sua crença/fé?
9. Hoje, o que é fundamental na sua vida?
10. O que você tem de importante a acrescentar?
Relação de Entrevistados
Entrevista 1 - Dr. Adalberto de Paula Barreto, 62 anos, solteiro. Psiquiatra e Professor, Canindé, CE.
Entrevista 2 - Adriana Rodrigues Barroso (Diana), 31 anos, casada, prof. manipuladora de alimentos, Tururu, CE
Entrevista 3 - Airton de Paula Barreto, casado, advogado, fundador do Movimento Emaús em Fortaleza, nascido em Canindé, CE.
Entrevista 4 - Andrea Moreira Fernandes, 27 anos, solteira, prof. química, Fortaleza
Entrevista 5 - Eliana Gaudino de Freiras (Lili), 40 anos, massoterapeuta, Fortaleza, CE
Entrevista 6 - José dos Santos, 61 anos, separado, motorista, Parazinho, CE
Entrevista 7 - José Lopes Macedo (Zequinha), 68 anos, viúvo, aposentado, Crato, CE
Entrevista 8 - Maria Leonor Martins de Moraes, 72 anos, viúva, costureira aposentada, Cascavel, CE
Entrevista 9 - Maria Clea Rodrigues Monteiro, 68 anos, casada, massoterapeuta, Fortaleza/Pirambu
[1] Doutor em Psiquiatria pela Universidade René Descartes de Paris; Doutor em Antropologia pela Universidade de Lyon; Licenciado em Teologia pela Universidade Santo Thomás de Aquino de Roma e Faculdade Católica de Teologia de Lyon; Terapeuta Familiar e Professor de Graduação e Pós-Graduação de Saúde Comunitária da Universidade Federal do Ceará.
[2] Advogado, pioneiro na história da luta da comunidade do Projeto Quatro Varas. Fundador do Movimento Emaús em Fortaleza.
[3] Disponível em http://www.4varas.com.br/historico.htm, pesquisado em 8 de abril de 2010.
[4] Entrevista concedida a Miriam Rivalta Barreto, 2000, para uma dissertação de mestrado.
[5] Conta com a população de 250.000 habitantes. “Caracteriza-se por ser área limítrofe na divisão leste-oeste de Fortaleza. Na parte oeste vão se situar as favelas e setores menos favorecidos. Do outro lado, no leste é a área nobre da cidade, onde se pode ver a paisagem urbana oficial”. (GIFFONI, 2008, p. 32).
[6] * Sua trajetória de vida e a relação estreita que estabeleceu com o Projeto Quatro Varas será apresentada no capítulo 1, Descrição da Terapia Comunitária.
[7] Primeiro presidente operário da União dos Moradores da Rua São Cura D’Ars; líder comunitário.
[8] Líder comunitário citado na página 18.
[9] Na tribo dos tremembés há uma dança da aranha. Conta o cacique que a aranha é o animal preocupado em construir sua teia, que é a fonte de vida da aranha, o vínculo vital, sua moradia, alimento e o seu transporte. Adalberto auxiliou a comunidade indígena a encontrar a cura para os problemas da tribo que estava ameaçada de perder suas terras e vivia dividida por conflitos internos. A partir de então a comunidade de Quatro Varas adotou a aranha para ser o símbolo do projeto, identificando os diversos vínculos da teia comunitária com as necessidades humanas - construir redes sociais solidárias de promoção da vida e mobilizar os recursos e as competências dos indivíduos, das famílias e das comunidades. Disponível em http://www.abratecom.org.br – acesso em 05 de abril de 2010.
[10] Entrevista em vídeo cedida a Luciana Burlamaqui, em 17 de abril de 1997, 2ª. parte, entre 02’25” a 05’17”
[11] Encaminhada pelo Centro de Atenção Psicossocial (CAPs), participou das 13 sessões prescritas e continua a frequentar a terapia comunitária.
[12] * Diana me explica que é AA é Alcoólicos Anônimos, uma irmandade de homens e mulheres que compartilham suas experiências, forças e esperanças, a fim de resolver seu problema comum e ajudar outros a se recuperarem do alcoolismo.
[13] A forma carinhosa que dona Cleinha trata seu marido.
[14] * O Encontro de Casais com Cristo – ECC - é um serviço da Igreja para evangelizar a família, primeiro núcleo de inculturação e da evangelização, “Igreja Doméstica” e “santuário da vida”, para despertar os casais para as pastorais paroquiais, devidamente integrados na Pastoral de Conjunto da Arquidiocese
[15] * Centro de Atenção Psicosocial - CAPs
[16] Entrevista concedida a Miriam Rivalta Barreto, 2000, para uma dissertação de mestrado.
[17] Idem, 16.